Museu é lugar de criança, sim!!

Se já é difícil pensar em equilibrar pediatra, natação, escola, casa dos avós, passeio no parque, dentista, idas ao PS, livraria – tudo isso tentando escapar dos doces e da tela – estou eu aqui para adicionar mais um item nesta lista interminável: MUSEUS. Eu poderia ser simplista e passar linhas e linhas explicando os benefícios de levar sua criança ao museu, o que, de fato, eu também farei. Porém, não sem antes te convidar a deslocar seu olhar para sair da ideia de “mais uma tarefa”  e encarar isso como “mais uma possibilidade de conexão com minha criança”, “mais uma possibilidade de conhecer o mundo”, “mais uma possibilidade de instigar a curiosidade da criança”…

Sim! Um passeio ao museu pode ser, ao contrário do que nossa imaginação muitas vezes supõe, um grande respiro no meio do caos. Mas, para isso, é preciso abrir mão daquela ideia de passar horas e horas no museu, andando enfileirado obra após obra como se estivéssemos realizando uma auditoria artística ou um trabalho acadêmico. Deixa disso!

Criança olhando para um grande mural em um museu
ALEXANDRE, Maxwell. Novo Poder: passabilidade. Sesc Avenida Paulista, São Paulo, 2024. Fotografia: arquivo pessoal.

Também é preciso despir a ideia de que os museus são espaços onde não cabem as crianças. Lugares apenas de pessoas “cult”, elegantérrimas, estudadas…

Vamos assumir de início que museu é lugar para todos, inclusive para as crianças. E que cada um apreciará e se relacionará com o acervo de acordo com suas experiências, seus repertórios e interesses. Muito do encantamento em um passeio como este está justamente aí: na multiplicidade de interpretações e relações que podem ser estabelecidas.

É bem possível que uma ida ao MASP, por exemplo, para ver a obra Porto I (1953), de Tarsila do Amaral, gere em um adulto a expectativa e o deslumbre de apreciar, de pertinho, a pintura de uma das mais reconhecidas artistas plásticas do país.

Já para uma criança, ver essa mesma obra pode fazê-la lembrar de suas esculturas com blocos de montar de madeira, gerar uma comparação com a paisagem vista em alguma viagem que a família já fez, aguçar a imaginação pensando em uma história que a artista quis contar… Esticando a experiência para fora do museu, dá até para, em casa, tentar uma releitura da obra remontar a obra usando Lego, blocos, desenho e por aí vai!

PANDOLFO, Nina. Exposição individual. Farol Santander, São Paulo, 2026. Fotografia: arquivo pessoal.

Se até aqui eu não fui convincente o suficiente, acho que agora é o momento de falar de benefícios cognitivos e sociais importantíssimos. Se as visitas aos museus se consolidarem como boas experiências logo no início da vida, certamente os ganhos em percepção, sensibilidade, reflexão sobre si e sobre o mundo, criatividade, aumento de vocabulário e imaginação seguirão até a vida adulta deste indivíduo. O trabalho cognitivo demandado neste tipo de experiência faz com que a ida ao museu seja:

– agente de aumento do vocabulário: obras artísticas, fotográficas, nomes de inventores e invenções, nomes de técnicas e assim por diante.

– um ótimo momento para estimular a noção de tempo: quando foi feito, quando eu aprecio, logo vou embora, acabei de chegar, isso é do passado ou aponta  para o futuro. É certo que só lá pelos 9 anos é que se consolida de verdade  a noção de passado ou futuro, porém, quanto mais experiências os pequenos tiverem, com mais qualidade eles vão formando este conceito. E que lugar ótimo para fazer isso é o museu, não é mesmo?

– aprender a valorizar e respeitar a expressão humana ao longo dos tempos, seja ela artística, científica ou filosófica. Além de se apropriar do espaço que guarda esses saberes como um território que também é da criança!

Embora acessar todas essas informações possa parecer um pouco a mais para um passeio em família, saiba que ter isso em mente te ajudará a ser um público museal mais seguro! Afinal, com todos esses ganhos, é inegável que ter crianças circulando em museus não é apenas possível, mas desejável.

Dito (tudo) isso, é hora de arrumar a mochila, o trocador de fraldas, garrafinha de água e, para te ajudar, deixo essas três dicas de ouro, anota aí

– Considerar o tempo como amigo: esqueça essa ideia de olhar todo o acervo do museu, de andar enfileirado vendo pinturas, esculturas e invenções como se estivessem em uma linha de produção. Desmarque os compromissos na agenda e deixe sua criança explorar com o ritmo dela. A criança precisa parar, observar, olhar de novo… Vale sentar no chão, em um banquinho, ver mais de uma vez a mesma obra.

– Ter em mente que museu é lugar de brincar: a linguagem da criança é a brincadeira. Ser detetive e buscar cores e caras nas pinturas, ser dançarino e imitar as poses das esculturas, entrar numa sala temática e ouvir uma história de aventura com as personagens expostas, dar palpites sobre para que serviam objetos antiquíssimos que podemos ver só em museus…. Dá pra deixar a imaginação livre.

– Enfrentar a ideia de que criança no museu só atrapalha: saiba que birras, choros, gritos e caras feias podem acontecer. A criança é completa! Se ela leva ao museu sua curiosidade e o frescor que só os olhinhos da infância possuem, levam também seu estado de aprendiz das regulações emocionais e dos códigos de comportamento social. E, para aprender, é preciso viver, experienciar… Que é exatamente o que vocês estão fazendo juntos!

Óbvio que enquanto eu escrevia tudo isso, me lembrei das várias vezes em que fui com meus filhos ao museu e senti que o cansaço do pós foi maior que os ganhos da visita. Mas, sinceramente, a cada nova visita, a cada nova chance que eu dava para nós como família, a cada exposição a experiência só melhorava!

Faz toda a diferença: usar sling para os bebês ainda pequenos, ir em horários mais alternativos logo no início ou no fim do expediente do lugar, sentar constantemente para apreciar as obras ou para apreciar as crianças apreciando, desencanar dos olhares ao redor, pedir ajuda quando precisar e ir embora assim que sentir que o cansaço está batendo na porta.

Afinal, chegar, ficar e ir embora dos diversos territórios que a vida nos oferece é direito de todos!


Laís Leonel.
Educadora, psicopedagoga, mãe de dois e apaixonada pelas infâncias.

MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin). MAHKU: Mirações. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), São Paulo, 2023. Fotografia: arquivo pessoal.

Bibliografia

AMARAL, Tarsila do. Porto I. 1953. 1 óleo sobre tela, 60 x 73 cm. Coleção Particular. Em comodato no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), São Paulo.

MARANDINO, Martha et al. Criança no museu é tudo de bom!. São Paulo: Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), 2023. DOI: 10.11606/9786587047614. Disponível em: GEENF/FEUSP. Acesso em: 29 jul. 2026.

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