Hoje mesmo meu filho, de pouco mais de 1 ano, viu um buraquinho na minha camiseta velha e ficou muito intrigado…
Ele colocava aquele pequeno dedinho pela parte de fora da camiseta e puxava minha gola com insistência para ver aonde tinha ido parar o dedo. Depois, fez o contrário: enfiou a mão pela gola e atravessou o dedinho minúsculo pelo buraquinho, de onde viu surgir seu dedo.
Ele fez isso uma, duas, três, muitas vezes…
E minha filha, de pouco mais de 3 anos, passou cerca de uma hora cortando pedaços de papel que vieram em embalagens de compras pelo Correio. Ela picotou tudo em muitos pedaços, de diversos tamanhos, várias e várias vezes. Em alguns momentos, meio rápido demais, fazendo meu coração gelar um pouquinho; em outros, bem lentamente, até não conseguir mais segurar o pequeno pedaço entre seus dedinhos.

Eu poderia ter dito que ela estava fazendo uma grande bagunça, o que era verdade, mas estava a serviço de algo maior! Poderia ter tirado o papel das mãos dela com medo da tesoura cortar seus dedinhos.
Poderia também ter dito para meu filho parar de mexer na minha camiseta antes que ele a destruísse de uma vez.
Mas, olhando bem para essas duas cenas, fica difícil não perceber que os dois estavam sendo exatamente aquilo que crianças são: curiosas!! E para terem a liberdade de ser, precisam mexer em tudo!!
Situações como essas que eu descrevi com meus filhos são observadas diariamente em qualquer casa com crianças pequenas. Eu aposto meio milhão que na sua também!!
Parece que esses pequenos humanos ganham uma faísca de curiosidade logo que saem da barriga. O mundo os provoca, cheio de sons, cheiros, texturas, imagens, movimentos, objetos… E eles respondem com uma curiosidade sem fim.
E aqui, ouso dizer que um dos maiores adversários que as crianças pequenas encontram para explorar toda essa curiosidade é: o medo que nós, adultos, temos. Atire a primeira pedra quem nunca disse:
“Tira a mão daí que isso não é brinquedo!”
“Menino, não mexe nisso porque quebra!”
“Menina, deixa isso lá que é pesado e vai cair no seu pé!”
Montessori, a médica e educadora italiana, queridinha do momento, mas que viveu entre os séculos XIX e XX e via tão à frente quanto podia sua mente brilhante e que descreveu a importância das crianças explorarem, por meio das mãos, os elementos do mundo, certamente se revira no túmulo toda vez que ouve sair da minha boca um “É para ver com os olhos, não com as mãos!”, rs.
Crianças mexem nas coisas porque é por meio das mãos que elas conhecem o mundo.
São as mãos que abrem e fecham, seguram e soltam, puxam e empurram, amarram e desamarram, amassam e constroem, furam e alisam, batem e acariciam. Para Montessori, as mãos têm uma relação profunda com o desenvolvimento da inteligência. Em A Mente Absorvente, um dos seus livros mais conhecidos, ela escreveu:
“As mãos são os instrumentos da inteligência humana.”
E é muito bonito pensar nisso quando observamos uma criança pequena descobrindo tudo ao seu redor. Imagine a riqueza de ter a liberdade de deixar o cantinho da casa com mil brinquedos de plástico liso e colorido e ir lavar uma louça. Sim, aquela louça do cotidiano que nós, prata da casa, já cansamos de lavar pode ser um tesouro para nossa criança.
A sensação da água escorrendo pela mão, a textura da bucha com e sem detergente, o peso diferente de um prato de louça, de uma vasilha plástica, de um copo de vidro… E se tudo estiver com água, quanto mais pesado fica? E, se estiver ensaboado, como pegar cada objeto?
Qual experiência parece mais enriquecedora para você? Certamente, lavar a louça. E por que, então, temos tanto medo de deixar as crianças chegarem perto das coisas da vida real?
É claro que não estou dizendo que devemos entregar uma faca para uma criança de 1 ano e sair para tomar um café, é preciso oferecer experiências reais sem ignorar riscos, claro!
A questão é outra: será que, às vezes, nosso medo elimina experiências que poderiam ser adaptadas para que a criança participasse com segurança?
Nesse sentido, os períodos sensíveis, também definidos pela Montessori, podem funcionar quase como um mapa para nós: pais, cuidadores e professores.
Montessori observou que, em determinados momentos do desenvolvimento, as crianças demonstram uma disponibilidade especial para algumas aprendizagens, esses são os períodos sensíveis. A criança parece buscar, espontaneamente, experiências que a ajudem a construir certas habilidades. E nosso trabalho aqui é perceber quando isso está acontecendo, uma das pistas é a repetição.
Uma criança que passa o dia abrindo e fechando portas, tampas e gavetas pode estar interessada no movimento, na relação de causa e efeito, na coordenação das mãos. Outra que insiste em colocar objetos dentro de recipientes pode estar investigando relações espaciais. Aquela que quer subir, descer, carregar, empurrar e transportar tudo pela casa pode estar encontrando no próprio movimento uma enorme fonte de aprendizagem.
Eu te convido a ir pesquisar e saber tim-tim por tim-tim dos períodos sensíveis. Aqui na rede tem alguns endereços bem interessantes e completos sobre o assunto. Porém, o meu convite mais genuíno mesmo, o simples, é para que você deixe sua criança mexer nas coisas… Observe o interesse dela, deixe-a tirar todas as meias da gaveta e depois colocar de novo, levar o copo até a pia, ver máquina de lavar rodando e rodando, arrastar os as cadeiras e banquinhos de um lado ao outro (depois a gente pede desculpas para o vizinho!).
Deixe a criança mexer!!!
Saber disso pode nos ajudar a olhar para aquilo que a criança já está tentando fazer e pensar: como posso não atrapalhar as oportunidades para que ela explore essa vontade?

É aqui que aquelas cenas que eu narrei para você no início do texto fazem mais sentido.
O buraquinho na camiseta, deixa de ser apenas um buraquinho. O pedaço de papel deixa de ser apenas lixo. A tesoura não precisa ser inimiga, inclusive, aqui em casa, a tesourinha usada é daquelas de cortar unhas de bebês, com a pontinha circular e o tamanho perfeito para uma mão pequenina. É uma adaptação para deixar a experiência mais segura, mantendo a liberdade da criança para dar vazão a sua curiosidade.
Quando uma criança faz a mesma coisa uma, duas, dez, vinte vezes, talvez ela não esteja simplesmente insistindo em algo buscando uma resolução, é um jeito que ela tem de dizer:
“É isso que eu quero descobrir agora e é o processo que me interessa!”
Então, se em vez de aterrorizarmos as crianças diante das coisas do mundo, pudéssemos olhar com mais calma e cuidado para sermos aliadas delas nesse processo?
Afinal,
“…para formar e manter nossa inteligência, precisamos usar nossas mãos.”
Laís Leonel.
Educadora, psicopedagoga, mãe de dois e apaixonada pelas infâncias.
Bibliografia
MONTESSORI, Maria. Mente absorvente. Tradução de Wilma Freitas Ronald de Carvalho. Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1949.
SALOMÃO, Gabriel. Períodos sensíveis: o que são e quais seu filho está vivendo agora. Lar Montessori, 23 mar. 2019. Disponível em: https://larmontessori.com/2019/03/23/periodos-sensiveis-montessori/. Acesso em: 21 set. 2026.